Pista e Recompensa
O que é e como utilizar
Você já saiu do cinema, ou terminou um episódio de série, com a percepção de que o roteiro era muito bem amarrado?
Que todas as pontas soltas se fechavam, e que a história te dava um sentimento de finalização?
Há uma boa chance de que essa sensação foi causada por um ótimo uso de uma ferramenta que chamamos de pista e recompensa.
Hoje, vamos analisar exatamente o que é essa ferramenta, e como você pode usá-la nas suas obras para tornar seu roteiro excepcional.
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Definindo pista e recompensa
Em inglês o termo usado para essa ferramenta costuma ser setup e payoff.
Em tradução livre, esses termos significam preparação e desfecho. Mas, em português, elas não denotam o mesmo sentido que na língua original. É por isso que, em português, vamos usar os termos pista e recompensa.
Essa ferramenta funciona da seguinte maneira: você apresenta um elemento durante a história e então, mais tarde, esse elemento reaparece, de maneira significativa.
Parece um pouco genérico – e de fato, é um termo bem amplo -, mas é fácil de entender o seu uso se nós partirmos de um exemplo.
Pista e recompensa em Homem de Ferro
Em primeiro lugar, aviso de spoilers! Vamos falar do primeiro filme do Homem de Ferro, de 2008, como exemplo.
Para refrescar a memória, esse filme conta a história de Tony Stark, um gênio e bilionário, dono de uma fabricante de armas, que decide criar uma armadura ultra-tecnológica e se tornar um super-herói.
No meio do filme, existe uma cena em que Tony está voando com a armadura pela primeira vez. Ele se diverte, tentando pegar o jeito da coisa, e então decide testar o quão alto ele consegue voar.
Ele sobe até uma grande altitude, mas, em certo momento, a armadura congela e para de funcionar.
Tony começa a cair em queda livre, mas, no último segundo, a armadura volta à operação e ele se salva. Fim da cena.
Essa é a pista: a armadura congela quando chega em grandes altitudes.
Muitos minutos depois, no clímax do filme, Tony está lutando contra o vilão, que também tem uma armadura. O protagonista está apanhando, e parece que não há chances de vencer o vilão.
Nessa hora, Tony voa até a altura máxima que consegue, e o vilão segue. Nessa hora, a armadura do vilão para de funcionar – assim como na outra cena -, mas a de Tony, não, já que ele corrigiu esse problema na sua própria armadura.
Assim, o vilão congela e desaba em queda livre, enquanto o Homem de Ferro consegue se safar.
Essa é a recompensa: ele usa o conhecimento de que a armadura congela para derrotar o vilão.
Agora ficou mais claro o que é uma pista e recompensa, certo?
Tipos de pista e recompensa
Esse exemplo do Homem de Ferro utiliza a ferramenta de pista e recompensa em um aspecto da trama.
No entanto, é possível usar essa mesma lógica para praticamente qualquer elemento de um roteiro.
Pode ser um personagem que é mencionado e depois aparece salvando o dia; pode ser um frase que é dita no início da temporada, e depois dita novamente no final da temporada, mas que ganha um novo significado por conta do contexto; pode ser uma piada que é feita no primeiro ato, e depois retomada no terceiro ato.
Enfim, qualquer elemento significativo que é plantado, e depois colhido.
Por que é tão eficaz?
Nós, seres humanos, estamos sempre buscando padrões.
Especialmente em narrativas ficcionais, nós não lidamos muito bem com fatos aleatórios. Tudo o que é apresentado na história deve ter um motivo para estar lá – e tudo o que tem algum significado na história precisa ter sido apresentado anteriormente.
Quem explicou isso muito bem foi o escritor dramaturgo Checov, que deu um exemplo que ficou famoso, conhecido como a Arma de Checov.
O que ele disse foi: Se você disser no primeiro capítulo que existe um rifle pendurado na parede, no segundo ou terceiro ele absolutamente precisa ser disparado.
Em outras palavras: não coloque nenhum elemento na sua história que não terá relevância mais tarde.
E o outro lado da moeda também é verdadeiro: você nunca deve apresentar um elemento significativo na história que não apareceu antes, ou ele parece uma “trapaça” ou uma “aleatoriedade”.
Imagine o exemplo do Homem de Ferro: se no clímax, Tony Stark tivesse ganhado do vilão levando ele até o céu, mas nós NÃO tivéssemos visto antes a cena em que ele descobre a falha da armadura, todo o público teria ficado irritado.
A resolução do conflito teria “vindo do nada”, “sem explicação”, ou seria “forçada”.
E também seria um caso do que a gente chama de Deus Ex-Machina, quando uma solução mágica aparece do nada para salvar o dia. É uma ferramenta muito pouco satisfatória para o público.
Em suma, existe algo profundamente satisfatório em ter elementos conectando a história inteira. Dá a impressão de encaixe, de perfeição e resolução que é muito bem percebida pelo público.
Nas nossas histórias, nós gostamos de que tudo tenha um significado, e que não fiquem pontas soltas.
Várias pistas, várias recompensas
Outro aspecto essencial dessa ferramenta é entender que existem diversas pistas e recompensas em um mesmo filme, série, ou até mesmo em um curta.
São várias conexões que são semeadas e depois colhidas, e não uma só.
No próprio Homem de Ferro, temos diversos exemplos:
- Primeiro vemos o desenho da armadura sendo planejada, depois vemos ela montada.
- Yinsen, um personagem que ajuda Tony Stark no primeito ato, fala que quer sair do cativeiro para ver a sua família. Mais tarde, para salvar Tony, Yinsen faz um movimento suicida, e então descobrimos que a família dele foi morta, e o plano de Yinsen sempre foi morrer para vê-los novamente.
- Na primeira vez que o Homem de Ferro voa em território internacional, o exército manda jatos atrás dele. Na segunda vez, eles já sabem que não é uma ameaça, e não mandam ninguém atrás dele.
Ou seja: uma mesma história possui várias pistas e recompensas, de vários tipos diferentes, ocorrendo simultaneamente.
A Regra de Três
É comum também que a pista e recompensa tenha um lembrete no meio do caminho.
Fazer isso não é obrigatório, mas às vezes é útil, especialmente quando a pista e a recompensa estão muito distantes ou são muito sutis.
É simples: você insere uma cena entre a pista e a recompensa, lembrando o público daquele elemento.
Em Homem de Ferro, por exemplo, existe uma cena em que Potts – a secretária/romance de Tony Stark – está tirando um reator arc do peito de Tony. Esse reator é uma bateria que mantém Tony vivo. Ela tira um reator antigo e substitui por um novo.
Essa é a pista: há um reator arc novo e um reator arc velho.
Algum tempo depois, Potts presenteia Tony com esse reator antigo, enquadrado com os dizeres “Prova de que Tony Stark tem um coração”. Ele coloca o presente em cima da sua mesa de trabalho.
Esse é o lembrete: o reator arc velho está enquadrado e fica em cima da mesa de Tony.
Mais tarde, na crise do filme, o vilão rouba o reator arc novo do peito de Tony. Sem essa bateria, Tony vai morrer em poucos instantes. Ele então busca o reator arc antigo, que está enquadrado, e coloca ele no peito novamente.
Essa é a recompensa: ele usa o presente de Potts para sobreviver ao ataque do vilão.
Dois coelhos, uma caixa d’água
Outro aspecto interessante é que boas pistas geralmente tem mais de um significado, o que torna elas menos óbvias.
Quando algum elemento é claramente uma pista, isso pode “entregar” o fim do filme, e estragar a surpresa que o público vai ter no desenrolar da história.
A pista precisa ser clara o suficiente para que tenhamos uma sensação de lógica e fechamento na hora da recompensa, mas também não pode ser óbvia demais, para que não percamos a surpresa.
Por isso, muitas vezes é interessante disfarçar essa pista.
Ou seja, fazer esse elemento ter mais de uma função ao mesmo tempo.
Por exemplo, a cena em que Potts tira o reator arc antigo de Tony Stark é uma cena cômica, e que aprofunda a relação das personagens. Quando assistimos pela primeira vez, não entendemos que é uma pista, porque estamos distraídos com o humor e a dinâmica entre Tony e Potts.
Escrevendo sua pista e recompensa
Bom, vamos agora ir para a prática, fazer um pequeno exercício hipotético de construção de pista e recompensa.
Muitas vezes, você percebe primeiro a necessidade de uma recompensa, e depois você planta a pista para justificar.
Vamos supor que você precise que a sua protagonista arrombe uma fechadura no início terceiro ato.
Ela não pode simplesmente demonstrar essa habilidade que nunca apareceu antes, ou isso pareceria uma trapaça. Portanto, precisamos voltar para o primeiro ato e plantar essa pista.
Sabendo que é sempre interessante que a pista tenha mais de uma função, vamos tentar disfarçar essa pista em uma cena cômica.
Vamos imaginar que no primeiro ato, a protagonista está atrasada para um compromisso para o qual vai de bicicleta. Ele vai pegar a bicicleta, mas lembra que ela está presa com aqueles cadeados protetores, e a personagem perdeu a chave!
Ele procura em todos os lugares, mas não acha a chave do cadeado. Seu último recurso: procurar no YouTube “como arrombar uma fechadura de bicicleta”. Temos uma pequena cena cômica da personagem tentando arrombar a fechadura da bicicleta, sem sucesso, até que PLIM! Ela magicamente se abre.
Pronto! Agora no terceiro ato, quando a personagem arrombar uma porta em um momento de necessidade, aceitaremos isso sem problemas, pois já vimos a personagem usar esse “poder” em um momento anterior do roteiro.
Mas e se essa primeira cena acontece muito no início do filme, e você sente a necessidade de lembrar a audiência desse elemento? Fácil, vamos inserir um lembrete.
Talvez nessa cena no primeiro ato, a personagem NÃO consiga arrombar a fechadura, não é bem sucedida em pegar sua bike, e chega atrasada para o compromisso.
Aí, vários minutos mais tarde, já no meio do filme, ela precisa abrir outra fechadura, mas agora de um baú antigo. A protagonista estrala os dedos, respira fundo, se concentra… e DESSA VEZ a fechadura cede.
Pronto! Além de inserirmos um lembrete no meio do filme, ainda criamos uma pequena jornada de transformação para a personagem – estamos fazendo diversas funções ao mesmo tempo.
Claro que esse é um exemplo super simplificado e hipotético, mas ilustra como seria uma abordagem: entender o que precisamos preparar, e aí semear essas pistas para colher a recompensa no momento apropriado.
Agora é sua vez!
Agora é a sua vez de ir para o seu roteiro e inserir pistas e recompensas. Há uma boa chance de que você já faça isso intuitivamente, mas é sempre útil entender melhor as ferramentas do ofício de roteirista.
Boa escrita!
